Quando a pergunta é sobre a saúde de alguém da família, o que se procura não é tendência, e sim segurança, qualidade e respaldo científico. Este guia reúne o que a literatura e as regras da Anvisa dizem hoje sobre o canabidiol (CBD) e a cannabis medicinal, com os números dos estudos e as limitações de cada um, para quem busca informação confiável em Brasília e no restante do Brasil. A situação regulatória foi conferida em 5 de outubro de 2026 e muda com frequência.
O que é o CBD e em que ele difere do THC
O canabidiol (CBD) é um dos fitocanabinoides da planta Cannabis sativa L. e, junto com o tetraidrocanabinol (THC), um dos mais abundantes. O THC é o principal componente psicoativo da cannabis e age como agonista parcial dos receptores canabinoides CB1 e CB2. O CBD não tem os efeitos psicoativos do THC e tem uma farmacologia mais ampla, que não depende da ação direta sobre esses receptores.
| Característica |
CBD |
THC |
| Efeito psicoativo |
Não tem os efeitos psicoativos do THC (Pisanti, 2017) |
Principal componente psicoativo da cannabis (Pertwee, 2008) |
| Receptores CB1 e CB2 |
Antagonista de agonistas desses receptores em células e tecidos testados (Pertwee, 2008) |
Agonista parcial dos dois receptores (Pertwee, 2008) |
| Outros alvos |
Canais iônicos, transportadores de neurotransmissores e outros receptores (Lattanzi, 2018) |
Também interage com alvos além do CB1 e do CB2 (Pertwee, 2008) |
| Regra no Brasil |
Há produtos autorizados com predominância de CBD |
THC acima de 0,2% é restrito a grupos de pacientes definidos pela norma |
O sistema endocanabinoide e como o CBD age
O sistema endocanabinoide é um sistema de sinalização espalhado pelo organismo, com papel no desenvolvimento do sistema nervoso, na plasticidade das sinapses e na resposta a agressões. Ele reúne os receptores canabinoides (o CB1 é o mais abundante), os endocanabinoides produzidos pelo próprio corpo, como a anandamida e o 2-araquidonoilglicerol, e as enzimas que os produzem e degradam. Canais do tipo TRP e receptores PPAR também são acionados por alguns canabinoides.
O CBD age em vários alvos ao mesmo tempo. Revisões descrevem ações dependentes e independentes dos receptores canabinoides, com efeitos sobre a imunomodulação e a modulação neuronal e cardiovascular. Nas epilepsias, o efeito anticonvulsivante não está ligado à ação direta nesses receptores, e sim a canais iônicos, transportadores de neurotransmissores e outros receptores. Boa parte desses mecanismos vem de estudos de laboratório e em animais, e ainda falta confirmar quais deles explicam os efeitos observados em pessoas.
O que os estudos mostram, condição por condição
Esta é a parte em que mais se erra: dizer que o CBD “serve para tudo”. A evidência é muito desigual. Em um grupo de condições ela é sólida, e em várias outras é limitada ou preliminar.
Epilepsias raras: a evidência mais sólida
Os ensaios clínicos mais robustos do CBD são em epilepsias graves e resistentes a medicamentos. Eles testaram um medicamento específico, uma solução oral de CBD purificado, usada junto com os antiepilépticos que o paciente já toma:
| Estudo |
Condição |
Participantes |
Resultado principal |
| Devinsky et al., 2017 (NEJM) |
Síndrome de Dravet |
120 crianças e jovens adultos |
A mediana mensal de crises convulsivas caiu de 12,4 para 5,9 com CBD, contra 14,9 para 14,1 com placebo; 5% ficaram sem crises, contra 0% |
| Devinsky et al., 2018 (NEJM) |
Síndrome de Lennox-Gastaut |
225 pacientes, de 2 a 55 anos |
Redução mediana das crises de queda de 41,9% e 37,2% (duas doses), contra 17,2% com placebo |
| Thiele et al., 2018 (Lancet) |
Síndrome de Lennox-Gastaut |
171 pacientes, de 2 a 55 anos |
Redução mediana de 43,9% nas crises de queda, contra 21,8% com placebo |
| Thiele et al., 2021 (JAMA Neurology) |
Complexo da esclerose tuberosa |
224 pacientes, de 1 a 65 anos |
Redução das crises de 48,6% e 47,5% (duas doses), contra 26,5% com placebo |
Uma metanálise de 4 ensaios, com 550 pacientes com Lennox-Gastaut ou Dravet, confirmou a redução de crises (cerca de 19,5 a 19,9 pontos percentuais a mais do que o placebo) e mostrou mais eventos adversos: 87,9% com CBD contra 72,2% com placebo, e abandono do tratamento por eventos adversos em 8,9% contra 1,8%.
Esses resultados valem para essas síndromes específicas e para o medicamento testado, em ensaios financiados ou conduzidos com a fabricante GW Pharmaceuticals. Eles não permitem concluir que qualquer produto com CBD funcione para qualquer tipo de epilepsia, nem para outras doenças.
Ansiedade e saúde mental
Uma revisão de 2015 concluiu que a evidência pré-clínica sustenta o CBD, em dose aguda, para vários transtornos de ansiedade, mas que os estudos em humanos se limitam à dose aguda, com poucos em populações clínicas. Um dos estudos mais citados é de pesquisadores da Universidade de São Paulo: em 24 pessoas com ansiedade social sem tratamento prévio, uma dose única de CBD reduziu a ansiedade, o prejuízo cognitivo e o desconforto em um teste de fala em público simulada, com resposta semelhante à de voluntários saudáveis.
Em uma metanálise de 2019 sobre canabinoides em transtornos mentais, com 83 estudos (40 ensaios randomizados, 3.067 participantes), a evidência foi considerada escassa para depressão, ansiedade, TDAH, síndrome de Tourette, estresse pós-traumático e psicose, e poucos ensaios avaliaram o CBD farmacêutico. Os autores consideraram a evidência insuficiente para orientar o uso dentro de um marco regulatório.
Dor crônica
Na revisão Cochrane de 2018, com 16 ensaios e 1.750 adultos com dor neuropática (a maior parte dos estudos testou THC e CBD combinados), o alívio de 50% ou mais da dor ocorreu em 21% com cannabis e 17% com placebo (evidência de baixa qualidade), e mais pessoas abandonaram o tratamento por eventos adversos (10% contra 5%). Os autores concluem que os benefícios potenciais podem ser superados pelos danos.
Na metanálise de 104 estudos e 9.958 participantes com dor crônica não oncológica, a diferença na intensidade da dor equivaleu a cerca de 3 mm em uma escala de 100 mm, e eventos adversos ocorreram em 81,2% contra 66,2% com placebo. Os autores consideram improvável que os canabinoides sejam medicamentos altamente eficazes para esse tipo de dor.
Sono
Uma revisão da literatura aponta que pesquisas preliminares sugerem potencial do CBD na insônia. O THC pode encurtar o tempo para dormir, mas pode prejudicar a qualidade do sono a longo prazo. O CBD pode ser promissor no transtorno comportamental do sono REM e na sonolência diurna excessiva. Os autores descrevem a pesquisa como incipiente, com resultados mistos.
Autismo e outras condições
Em uma revisão sistemática de 10 estudos sobre canabinoides no transtorno do espectro autista, os achados foram promissores para comportamentos-problema, problemas de sono e hiperatividade, mas os efeitos sobre os sintomas centrais do autismo são pouco conhecidos. Outras indicações frequentemente citadas, como espasticidade, fibromialgia, doenças neurodegenerativas e cuidados paliativos, não foram avaliadas nas revisões usadas neste guia, e a decisão sobre elas cabe ao médico.
E o THC medicinal?
O THC pode ser considerado pelo médico em contextos específicos, sempre com avaliação de risco e benefício. Na metanálise de 2019 sobre transtornos mentais, o THC farmacêutico, com ou sem CBD, melhorou levemente a ansiedade em pessoas com outras doenças (evidência de qualidade muito baixa), piorou sintomas negativos de psicose em um estudo e aumentou os eventos adversos (OR 1,99) e os abandonos por eventos adversos (OR 2,78). No Brasil, o uso de produtos com THC acima de 0,2% é restrito a grupos de pacientes definidos pela norma.
Como o CBD é absorvido
A absorção do CBD varia com a via e com a alimentação. Em uma revisão sistemática de 24 artigos, a meia-vida foi de 1,4 a 10,9 horas após spray oromucoso e de 2 a 5 dias após uso oral crônico. O pico de concentração aumentou com a alimentação e com formulações lipídicas, e o tempo até o pico ficou entre 0 e 4 horas. A biodisponibilidade absoluta em humanos só foi relatada para o fumo (31%), e os autores destacam a escassez e a discrepância dos dados. Por isso, a forma farmacêutica e o horário de uso em relação às refeições são decisões do prescritor.
Efeitos adversos, interações e precauções
| Tema |
O que os estudos descrevem |
| Efeitos mais comuns |
Cansaço, diarreia e mudanças de apetite ou de peso (Iffland, 2017) |
| Metanálise de 12 ensaios, 803 pessoas |
Mais abandonos (OR 2,61), eventos graves (OR 2,30), perda de apetite (OR 3,56), diarreia (OR 2,61), sonolência (OR 2,23) e sedação (OR 4,21) com CBD do que com placebo (Chesney, 2020) |
| Fígado |
Eventos graves ligados a exames de fígado alterados (OR 11,19), concentrados na epilepsia infantil, com possível interação com clobazam e valproato; nos ensaios de epilepsia, 9% a 18,9% dos que receberam CBD tiveram aumento de transaminases (Devinsky, 2018; Thiele, 2021) |
| Fora da epilepsia infantil |
Só a diarreia se associou ao CBD (OR 5,03) (Chesney, 2020) |
| Interações |
Ação sobre as enzimas CYP3A4 e CYP2C19 e sobre a glicoproteína P; potencial de interação alto com medicamentos comuns (Brown, 2019) |
| Lacunas |
Efeitos hormonais ainda não estudados; faltam estudos longos e com mais participantes (Iffland, 2017) |
Uma revisão de bulas de produtos com CBD estimou que quase metade dos usuários teve algum evento adverso, com relação dose-resposta. Por isso, quem usa medicamentos de uso contínuo deve falar com o prescritor e com o farmacêutico antes, e o acompanhamento médico, com exames quando indicados, faz parte do uso. Os dados sobre gestantes e lactantes não foram avaliados nas fontes consultadas, e por precaução o uso nessas situações só deve ocorrer por indicação médica.
Qualidade: o que pesa na escolha de um CBD
Em um estudo de 2017 com 84 produtos de CBD comprados na internet e analisados em laboratório, 26% continham menos CBD do que o informado no rótulo, o que poderia anular qualquer resposta clínica, e o THC foi detectado em 18 produtos. Para o CBD isolado que pode ser usado em farmácias, a norma exige o fitofármaco CBD com pureza mínima de 98% em base anidra, atendendo aos parâmetros de uma farmacopeia reconhecida pela Anvisa.
Na prática, qualidade não é marketing, é processo:
-
Rastreabilidade: capacidade de identificar origem, lote, documentação e histórico sanitário;
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Padronização da concentração: clareza e precisão no teor de canabinoides, com laudo;
-
Controle documental: registro técnico e cumprimento das normas aplicáveis;
-
Orientação farmacêutica: profissional habilitado para esclarecer dúvidas sobre uso, armazenamento, cuidados e interações;
-
Conformidade sanitária: nenhuma etapa fora do que a regulamentação permite.
CBD e THC medicinal no Brasil em 2026: o que diz a lei
Em 28 de janeiro de 2026, a Anvisa aprovou por unanimidade novas regras para a cannabis medicinal, em cumprimento a uma decisão do Superior Tribunal de Justiça, e as resoluções foram publicadas no Diário Oficial em 3 de fevereiro de 2026. A RDC 1.015/2026 atualiza o marco regulatório da RDC 327/2019 (de 9 de dezembro de 2019) para fabricação e importação de produtos de cannabis e, segundo o Conselho Federal de Farmácia, a substitui. As regras de dispensação em farmácias e drogarias entraram em vigor em 4 de maio de 2026.
- os produtos de cannabis não são medicamentos registrados: têm autorização sanitária para uso medicinal, e a Anvisa informou que 49 produtos estavam regularizados em janeiro de 2026, com a expectativa de que avancem para estudos clínicos que indiquem base de eficácia;
- a dispensação exige prescrição médica;
- a atualização ampliou o público autorizado a usar produtos com THC acima de 0,2%, incluindo pacientes com doenças debilitantes graves, como fibromialgia e lúpus;
- continuam proibidos o uso recreativo, os cosméticos, os produtos fumígenos e a venda da planta in natura ou de flores secas;
- a divulgação é restrita a profissionais prescritores, e a publicidade ao público em geral é proibida, razão pela qual este guia é informativo;
- a importação excepcional por pessoa física, com prescrição, não foi revogada, e a Anvisa abriu a revisão da RDC 660, que a regula.
Fontes: Anvisa, 3/2/2026; Anvisa, 28/1/2026; Conselho Federal de Farmácia, 9/3/2026; ICTQ; Conjur, 8/2/2026.
CBD manipulado: o que muda e o que ainda depende de norma
Muita gente pesquisa “CBD manipulado” em busca de atendimento individualizado, maior controle de qualidade e orientação técnica. A RDC 327/2019 não admitia a manipulação de produtos de cannabis em farmácias. A RDC 1.015/2026 abriu essa possibilidade: é permitida a manipulação de preparações magistrais contendo, como insumo farmacêutico ativo, exclusivamente o fitofármaco CBD, obtido da Cannabis sativa L., conforme regulamentação a ser editada pela Anvisa. A autorização não inclui a planta, os extratos completos nem o THC.
Segundo as fontes consultadas, entre elas o Conselho Regional de Farmácia de São Paulo e a Anfarmag, a atividade depende da publicação dessa norma específica de boas práticas de manipulação, que a Anvisa informou que será objeto de uma nova resolução. Nas fontes consultadas até 5 de outubro de 2026, não localizamos a publicação dessa norma. As farmácias de manipulação já operam sob a RDC 67/2007 (Boas Práticas de Manipulação), que exige qualificação de fornecedores, controle de qualidade de insumos, rastreabilidade e supervisão farmacêutica.
O que isso significa para o paciente: a individualização de dose e forma farmacêutica que a manipulação permite está prevista, mas só pode ser feita conforme a norma específica. Ao procurar CBD manipulado, vale perguntar em qual norma a farmácia se apoia. Para saber como o atendimento da MaxPharma está hoje, fale com uma farmacêutica. Fontes: CRF-SP; Anfarmag.
Se a busca é por CBD ou THC medicinal em Brasília para um familiar, algumas perguntas ajudam:
- a empresa demonstra conformidade regulatória clara, com AFE e AE ativas e responsável técnico com registro no CRF? Os documentos da MaxPharma estão em Documentação e licenças;
- há farmacêutico responsável acessível para esclarecer dúvidas e interações?
- há transparência sobre processos, lote, laudo e documentação?
- a comunicação é ética, sem promessas de cura e sem publicidade ao público, como a norma exige?
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Cuidados
- o uso de CBD e de produtos de cannabis exige prescrição médica e acompanhamento, e não substitui tratamentos estabelecidos;
- informe ao médico e à farmacêutica todos os medicamentos e suplementos em uso, por causa das interações;
- não interrompa nem troque medicamentos, como antiepilépticos, por conta própria;
- gestantes, lactantes e crianças só devem usar por indicação médica;
- desconfie de produtos sem laudo, sem lote e sem origem, e de promessas de cura.
Antes de qualquer decisão, converse com o profissional prescritor e esclareça as dúvidas sobre indicação, riscos, interações e monitoramento. Veja a página do ativo CBD (canabidiol), com a lista completa de estudos, e os demais ativos manipulados.
Leia também: Ashwagandha: o que é e o que dizem os estudos
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