A melatonina é o hormônio que informa ao organismo que é noite, e por isso virou o suplemento mais associado ao sono. O que os ensaios clínicos mostram, porém, é mais matizado do que a fama: em média, o efeito sobre o sono é modesto e varia com a idade, com a causa da insônia, com a dose, com o horário e com o tipo de formulação. Neste guia reunimos 14 estudos, entre metanálises, revisões e ensaios randomizados, para explicar o que a melatonina faz, o que muda na versão de liberação prolongada (time release) e onde a evidência ainda é fraca.
O que é a melatonina e como o corpo a produz
A melatonina é produzida sobretudo pela glândula pineal, na base do cérebro, em condições de baixa luminosidade. Ela está associada à sincronização do ritmo circadiano, o relógio biológico de cerca de 24 horas, e à modulação do ciclo sono-vigília. Em adultos mais velhos, a produção noturna pode diminuir.
Por isso a melatonina costuma ser descrita mais como um sinal de “hora de dormir” do que como um sedativo. Os estudos medem sobretudo quanto tempo a pessoa leva para dormir, quanto dorme e como avalia a qualidade do sono.
A resposta curta é: funciona um pouco, e não para todos os grupos. A tabela resume as principais revisões.
| Revisão |
O que analisou |
Resultado |
| Ferracioli-Oda, 2013 |
19 ensaios, 1.683 pessoas com transtornos primários do sono |
Latência do sono 7,06 minutos menor, tempo total de sono 8,25 minutos maior e melhor qualidade do sono; efeito modesto |
| Cruz-Sanabria, 2024 |
26 ensaios duplo-cegos, 1.689 observações |
Redução gradual da latência e aumento do tempo de sono, com efeito que depende da dose e do horário |
| Choi, 2022 |
24 ensaios em insônia crônica |
Sem efeito significativo em adultos sem outras doenças; efeito em crianças e adolescentes |
| Chang, 2026 |
98 ensaios em dor crônica |
Melhor qualidade do sono, com evidência de certeza moderada e sem mais eventos adversos que o placebo |
| McCleery (Cochrane), 2020 |
5 ensaios com melatonina em demência, 222 pessoas |
Pouco ou nenhum efeito sobre o sono, com evidência de baixa certeza |
Os resultados parecem contraditórios, mas há explicações. As revisões misturam doses, horários e populações diferentes, e os autores de uma delas mostram que o intervalo entre a administração e a hora de dormir pesa na resposta. Em um ensaio com 791 adultos, a latência do sono melhorou de forma significativa no grupo de 55 a 80 anos, mas não no grupo de 18 a 80 anos, que incluía pessoas mais jovens.
Um efeito “modesto” em média, como o de cerca de 7 minutos a menos para dormir, pode ser relevante para uns e irrelevante para outros. Por isso a indicação, o horário e a formulação devem ser definidos por um profissional, caso a caso.
Melatonina de liberação prolongada (time release): o que muda
A melatonina comum é absorvida e eliminada rapidamente. A formulação de liberação prolongada libera o hormônio aos poucos, com a proposta de manter níveis mais altos por mais tempo e imitar o padrão da noite, o que, em teoria, favorece a manutenção do sono e não só o início.
O que mostra a farmacocinética
Em um estudo de fase I com 14 voluntários saudáveis, uma formulação de liberação prolongada (Oniria®) teve duas fases: até 2 horas após a dose, as concentrações foram equivalentes às do comprimido de liberação imediata, e entre 2 e 11 horas ficaram significativamente mais altas, cerca de três vezes mais entre 4 e 6 horas. O estudo mediu concentração no sangue, e não sono, e teve autores ligados à empresa fabricante.
O que mostram os ensaios clínicos
| Estudo |
Participantes |
Principais resultados |
| Lemoine, 2007 |
170 pessoas com 55 anos ou mais e insônia primária, 3 semanas |
Melhor qualidade do sono e alerta pela manhã que o placebo, sem rebote nem abstinência |
| Wade, 2011 |
791 adultos de 18 a 80 anos, com acompanhamento de 6 meses |
Latência do sono menor no grupo de 55 a 80 anos (−15,4 contra −5,5 minutos), com benefícios mantidos por 6 meses, sem tolerância, abstinência ou insônia de rebote |
| Lemoine, 2012 |
Subgrupos que usavam anti-hipertensivos, em 4 ensaios |
Melhor sono, sem diferença na pressão arterial diurna; análise post hoc |
| Wade, 2014 |
80 pessoas com Alzheimer leve a moderado, 24 semanas |
Melhor desempenho em atividades diárias e no Mini-Exame do Estado Mental, sem diferença na escala ADAS-Cog |
| Lyseng-Williamson, 2012 |
Revisão da formulação aprovada na União Europeia para maiores de 55 anos |
Sem efeito sobre funções psicomotoras, memória e habilidade de dirigir em relação ao placebo, e sem dependência, tolerância ou rebote |
Um ponto central: quase todos esses ensaios usaram o mesmo produto, o Circadin® 2 mg, e envolveram pessoas com 55 anos ou mais, e parte deles teve autores ligados à empresa que o fabrica. Os resultados não se estendem automaticamente a outras formulações de liberação prolongada, como o Melotime™, nem a adultos mais jovens.
Liberação prolongada é sempre melhor?
Não. Não localizamos ensaio que compare diretamente a melatonina de liberação prolongada com a de liberação imediata em desfechos de sono. E, no jet lag, a revisão Cochrane concluiu que a formulação de liberação lenta teve eficácia relativamente menor, o que sugere que, para ajustar o relógio, um pico mais curto e mais alto funciona melhor. A escolha depende do objetivo do prescritor.
Melatonina e jet lag
Uma revisão Cochrane de 2002, com 10 ensaios em passageiros, tripulantes e militares, é a evidência mais citada. Nove dos dez ensaios encontraram que a melatonina tomada perto da hora de dormir no destino diminuiu o jet lag em voos que cruzam cinco ou mais fusos horários. Doses diárias diferentes tiveram efeito semelhante, e doses mais altas não foram mais eficazes.
- o benefício tende a ser maior quanto mais fusos horários são cruzados e menor nos voos para oeste;
- tomada no horário errado, a melatonina pode causar sonolência e atrasar a adaptação ao horário local;
- relatos de caso sugerem cautela em pessoas com epilepsia e em quem usa varfarina.
Outras áreas estudadas
A melatonina também foi avaliada fora do sono, com resultados preliminares:
-
Síndrome do intestino irritável: em 7 ensaios com 391 adultos, reduziu os sintomas moderados a graves e melhorou a frequência de dor, sem diferença na qualidade de vida nem no sono global (Mahdi, 2026);
-
Dor crônica: melhorou a qualidade do sono em 98 ensaios (Chang, 2026);
-
Doença de Alzheimer: um ensaio com a liberação prolongada mostrou benefícios em cognição e atividades diárias (Wade, 2014), mas a revisão Cochrane de 2020 não encontrou efeito sobre o sono.
Esses resultados não permitem concluir que a melatonina trate essas condições.
Segurança, interações e cuidados
- nos ensaios com liberação prolongada, os eventos adversos foram poucos e leves, sem diferença significativa do placebo, sem insônia de rebote e sem abstinência;
- a melatonina é metabolizada principalmente pela enzima hepática CYP1A2, e inibidores potentes dessa enzima podem alterar seu metabolismo (Papagiannidou, 2014);
- a orientação da Anvisa para suplementos de melatonina exclui gestantes, lactantes e crianças, e pessoas em atividades que exigem atenção constante;
- quem tem epilepsia ou usa anticoagulantes, como a varfarina, deve falar antes com o prescritor;
- insônia que persiste deve ser avaliada por um profissional de saúde, porque pode ter causas que a melatonina não trata.
Melatonina no Brasil: suplemento ou manipulado?
Em outubro de 2021, a Anvisa autorizou a venda de melatonina como suplemento alimentar, para pessoas com 19 anos ou mais e com limite de 0,21 mg por dia. Antes disso, a melatonina só era vendida em farmácias de manipulação, com prescrição.
Na farmácia de manipulação, a fórmula é preparada sob prescrição, e quem define a forma, a dose e o horário é o prescritor, com base na avaliação de cada pessoa. O produto não é vendido como suplemento pronto, e a MaxPharma não tem preço nem carrinho para manipulados.
Melatonina na MaxPharma
O Melotime™ é um insumo de melatonina de liberação prolongada, exclusividade da Caldic, segundo o fornecedor. Na página dele você encontra o que o fornecedor descreve, os 10 estudos que consultamos e as precauções, e a informação de que não localizamos estudo clínico publicado com o próprio Melotime™.
A MaxPharma também vai publicar a página da melatonina em outras formas de liberação, e este artigo será atualizado com o link. Para quem busca ativos estudados em sono e equilíbrio, veja também KSM-66® Ashwagandha, Magnésio Treonato, Magnésio Quelato e Saffrin®, ou todos os ativos manipulados. A combinação de ativos e as doses são sempre definidas pelo prescritor.
O que ainda falta saber
Faltam ensaios que comparem diretamente a liberação prolongada com a liberação imediata, estudos com a liberação prolongada em adultos mais jovens, dados de longo prazo e estudos clínicos publicados com o Melotime™. Os resultados em adultos com insônia crônica sem outras doenças continuam divididos entre as revisões.
Leia também: Ashwagandha: o que dizem os estudos · Tipos de magnésio: diferenças
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